Foto retirada do site Getty Images
Pai eu me lembro, como se fosse hoje, do dia que chegastes em casa e parando na entrada da sala, olhastes para a mãe, nem reparando que eu estava lá vendo televisão e dissestes: - Mulher hoje falei com nosso filho e ele está bem. Estou muito cansado, mas estou feliz. Andastes até o sofá, sentastes tirando os sapatos, deitastes e logo estavas dormindo.
Esta cena foi a última que vi, pois três dias depois já não estavas mais conosco, tinhas passado mal e sendo hospitalizado em estado grave. Morrestes tão de repente, sem nenhuma explicação que pudesse, naquela época, o meu coração ter entendido ou aceito.
Havia dois anos que tínhamos perdido nosso querido irmão, seu filho, com dezoito anos, na flor da idade, atropelado e tudo por causa de correr atrás de uma bola de futebol. Foi uma grande perda, uma dor para todos nós, mas para você, meu pai, foi mais do que isso, pois recusastes a se conformar com a ausência de seu filho mais velho.
Passavas o tempo todo nos seguindo para onde fôssemos com medo de nos perder também. Quantas vezes eu estava caminhando pela rua, seguindo para o cursinho de vestibular e, de repente, sentia uma mão no meu ombro. Olhava assustada e era você meu pai que logo dizia: - Não se assuste filha, só vim aqui para saber se está tudo bem com você. E assim seguistes esses anos acompanhando seus filhos e preocupando a todos nós.
Quando consegui passar no vestibular e meu irmão passou para a marinha nos parabenizastes e dissestes que já havias cumprido a sua missão, que estavas feliz em ver todos os seus filhos bem encaminhados.
Passavas uma parte do tempo lendo e pesquisando sobre como poderias falar com o teu filho que se fora, precisavas muito se despedir dele, assim falavas. Pesquisastes tanto que acabastes conseguindo, acredito eu, pois foi o que demonstrastes em suas últimas palavras.
Tantos anos já se passaram e hoje vejo com outros olhos tudo que aqui lhe relatei. A vida foi se encarregando de nos amadurecer e ensinando que o teu amor por nós foi tão sublime, mostrando uma forma única de agir em cada coração. Coube a nós respeitar e aceitar a sua partida.
Foi assim que cheguei a conclusão que o amor que você, meu pai, sentia por nós era igual para todos, mas que o que querias é que estivéssemos bem para seguires a fazer companhia ao nosso irmão que estava sozinho.
Quantas noites me deparei a sonhar com a mesma cena onde estavas num lindo jardim a brincar com nosso irmão. Pareciam muito felizes e a cena para mim era tão real que até sentia um vento bater em minhas faces, o cheiro das folhas das árvores caindo e avistava vocês alegres soltando pipa.
Foi assim meu pai que entendi o quanto nos amava e como sou feliz e tenho orgulho de ser sua filha.
*Escrito por Irene Moreira*
Escrevi uma história talvez um pouco triste, mas contendo muita coisa real. O que quis mostrar foi unicamente a grandeza do amor de um pai por seus filhos.
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